Ninguém Magoa Sem Intenção, Várias Vezes
Há feridas que acontecem por acaso, deslizes que surgem sem querer, palavras que escapam sem cálculo. Mas quando a mágoa se repete, quando o gesto se torna recorrente, já não é acidente: é escolha. Ninguém magoa sem intenção, várias vezes. A repetição revela consciência, mostra que houve oportunidade de mudar e, ainda assim, optou-se por ferir.
É duro perceber isso, porque gostamos de acreditar que tudo pode ser desculpa, que todo erro é apenas falta de atenção. Mas a vida nos ensina que a constância da mágoa denuncia a verdade: há quem não saiba amar sem ferir, há quem não saiba se relacionar sem impor dor. E nesse ponto, precisamos aprender a distinguir o tropeço do hábito, o acidente da decisão.
A mágoa repetida não é apenas um gesto contra nós, é também um reflexo do coração de quem a pratica. Mostra limites, revela prisões internas, expõe fragilidades que se transformam em agressão. E, por mais difícil que seja, precisamos reconhecer que não cabe a nós justificar sempre, nem aceitar indefinidamente. O perdão é necessário, mas a consciência também.
Deus nos ensina isso com clareza. Ele perdoa nossas falhas, mas também nos chama à mudança. Ele não ignora o erro, mas nos convida a não permanecer nele. Porque o amor verdadeiro não se acomoda na repetição da mágoa, ele busca transformação. O perdão é infinito, mas a graça também é exigência: não para esmagar, mas para libertar.
Assim, aprendemos que a mágoa constante não pode ser tratada como acaso. Ela é sinal, alerta, convite à reflexão. E cabe a nós decidir: permanecer em vínculos que ferem ou buscar caminhos que curam. Porque ninguém magoa sem intenção, várias vezes. E reconhecer isso é também um ato de amor próprio, de cuidado com a alma, de respeito pela vida que Deus nos deu.
No fim, o que permanece não é a dor da mágoa, mas a lição que ela traz. A lição de que precisamos discernir entre quem erra por descuido e quem fere por escolha. Entre quem pede perdão e busca mudança, e quem apenas repete sem se importar. E nesse discernimento, encontramos liberdade: a liberdade de não carregar pesos que não são nossos, a liberdade de escolher vínculos que constroem em vez de destruir.
Porque a vida é curta demais para ser vivida em feridas constantes. E o amor é grande demais para ser reduzido a mágoa repetida.
*César

