Nem Todo Vínculo é Permanência
Vivemos cercados de vínculos. Alguns nascem de forma espontânea, outros são construídos com esforço, paciência e entrega. Há laços que se tornam raízes, que resistem ao tempo e às tempestades, e há aqueles que são apenas folhas ao vento, que acompanham por um trecho e depois se desfazem. Nem todo vínculo é permanência. Alguns são apenas uso, até que deixem de servir.
É duro admitir isso, porque crescemos acreditando que toda relação verdadeira deveria durar para sempre. Mas a vida insiste em nos mostrar que há encontros que são apenas passagem. Pessoas que chegam para nos ensinar algo, para nos transformar em algum aspecto, e depois partem. Não significa que foram inúteis; significa apenas que cumpriram sua função. São pontes que nos levam de um ponto a outro, e depois deixam de existir.
O problema é quando confundimos uso com permanência. Quando acreditamos que todo gesto de proximidade é promessa de eternidade. Criamos expectativas, nos entregamos, e depois sofremos ao perceber que o outro estava apenas de passagem. Mas talvez o aprendizado esteja justamente aí: entender que a vida é feita de encontros que nem sempre se tornam raízes.
Alguns vínculos são utilitários. São mantidos enquanto há interesse, enquanto há algo a oferecer. Quando o propósito se esgota, eles se desfazem sem cerimônia. É doloroso, porque nos sentimos descartados, como se nossa presença tivesse prazo de validade. Mas é também revelador: mostra que nem todos estão preparados para a permanência, que nem todos sabem cultivar vínculos que resistem ao tempo.
E nesse contraste, surge a beleza dos vínculos verdadeiros. Aqueles que não dependem de utilidade, que não se sustentam em conveniência. São laços que permanecem mesmo quando não há nada a oferecer, mesmo quando não há vantagem em ficar. São vínculos que se tornam abrigo, que resistem às fases difíceis, que se mantêm firmes mesmo quando tudo parece desmoronar.
Deus, porém, nos mostra um contraste ainda maior. Enquanto os vínculos humanos podem ser frágeis, condicionais e passageiros, o vínculo d’Ele conosco é permanência. Ele não nos usa até que deixemos de servir. Ele não nos abandona quando não temos nada a oferecer. Ele nos ama apesar das nossas falhas, nos acolhe mesmo quando chegamos quebrados, nos espera mesmo quando demoramos a voltar. O abraço divino não é utilitário, é eterno.
E talvez seja esse o maior consolo: saber que, mesmo quando os vínculos humanos se desfazem, há um vínculo que nunca se rompe. Um vínculo que não depende de utilidade, que não se mede por interesse, que não se desgasta com o tempo. O vínculo com Deus é permanência. Ele não nos mede pelo que temos a oferecer, mas pelo que somos: filhos amados.
Assim, aprendemos a valorizar os vínculos que permanecem, mas também a aceitar com serenidade os que se desfazem. Porque cada encontro, seja breve ou duradouro, carrega um sentido. Alguns nos marcam pela constância, outros pela intensidade do instante. E todos, de alguma forma, nos moldam.
No fim, o que importa não é quantos vínculos resistem ao tempo, mas o quanto cada um nos ensina sobre quem somos e sobre quem Deus é. Ele, sim, é o vínculo que nunca se desfaz, o abraço que não se retira, a permanência que não depende de utilidade.
E quando entendemos isso, o peso da perda se torna mais leve. Porque sabemos que, mesmo quando alguém parte, ainda permanecemos ligados ao amor que não parte. E esse amor é suficiente para nos sustentar, para nos dar coragem, para nos lembrar que, apesar das ausências, nunca estamos sozinhos.
*César

