terça-feira, 4 de janeiro de 2022

“Cada próximo passo da sua vida vai exigir um novo você. E algumas vezes precisamos ser quebrados para nos tornarmos uma nova versão de nós mesmos”


Você já parou para pensar que as experiências que a gente vive, por mais turbulentas ou dolorosas que sejam, talvez tenham acontecido para nos aproximar de quem a gente é?


Talvez devêssemos usar a oportunidade da dor, da desconstrução, do arrebatamento, do desmoronamento, das fraturas na alma como facilitadores do encontro com nós mesmos.


Joseph Campbell, em “O Poder do Mito”, diz que o que estamos procurando não é um sentido para a vida, e sim uma experiência de estar vivos.


Concordo com ele. Porque o que nos move, modifica ou aproxima de nosso ser mais puro e real – e talvez até desconhecido de nós mesmos por estar encoberto sob camadas e mais camadas de influências externas – são as experiências que aguçam nossos sentidos de forma mais intensa: o arrebatamento da paixão, a angústia, a dor, as turbulências, o desejo, a perda.


Dia desses assisti novamente ao filme “As Pontes de Madison”, de 1995. Mais amadurecida e com alguma bagagem, revi o filme sob uma nova perspectiva além daquela sobre adultério ou traição feminino. Pra quem não conhece, o longa conta a história de um fotógrafo da revista National Geographic incumbido de fotografar as pontes de Madison, em Iowa. Lá, ele conhece uma dona de casa cujo marido e filhos estão viajando. Os dois vivem um breve e intenso romance, com duração de quatro dias, que marca definitivamente a vida dos dois.


Porém, deixando de lado o fato de Francesca, personagem interpretada por Meryl Streep, ter cedido ao desejo e vivido uma relação extra conjugal, nos deparamos com uma mulher na meia idade descobrindo a si mesma. Se ouvindo. Se percebendo. Se amando. Se resgatando. Se transformando. Descobrindo seus gostos, suas preferências. Entrando em contato com sua verdade mais profunda e autorizando a si mesma deixar vir à tona quem era de fato. Uma das cenas que mais gosto é aquela em que ela está na banheira, sozinha, e pensa: “Estou agindo como alguma outra mulher, contudo, nunca fui tanto eu mesma como agora”.


Há uma frase do Padre Fábio de Melo que diz: “Há pessoas que nos roubam. Há pessoas que nos devolvem”. No caso da personagem, ela foi resgatada, devolvida a si mesma através da experiência da paixão. E, mesmo escolhendo não viver esse amor até o fim, foi modificada para sempre. Retornou para sua vida, para sua rotina de mãe, esposa e dona de casa, mas nunca mais foi a mesma. E isso é constatado no registro que ela faz em seu diário: “Em quatro dias, ele deu-me uma vida inteira, um universo, e deu consistência a todo o meu ser.”


A experiência da dor também ensina e nos aproxima de nós mesmos. E ser nós mesmos nem sempre é continuar na mesma estrada que estávamos seguindo. Muitas vezes descobrimos que é preciso mudar de rota, desacelerar o passo, explorar outras paisagens, mergulhar no desconhecido e ousar enfrentar o que mais nos amedronta.


Às vezes você precisa ser quebrado para se tornar uma versão melhor de si mesmo. Às vezes você precisa sangrar e ficar à flor da pele para conseguir se resgatar por trás das máscaras e proteções, condicionamentos e projeções. Às vezes é preciso um novo você para que a vida volte a pulsar.


Tudo passa. O que permanece é aquilo que conseguimos ressignificar a partir da experiência do amor, da dor, da perda, do arrebatamento, do enfrentamento. E é esse novo sentido que irá nos curar e enriquecer nossa experiência de estar vivos, permanecendo para sempre conosco como um lembrete de que nossa alma foi tocada.


*Fabíola Simões 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Deus é especialista em reviravoltas


Há acontecimentos que a gente escolhe, e acontecimentos que escolhem a gente. Há histórias que batalhamos para serem contadas, e histórias em que nos tornamos protagonistas da noite para o dia, sem tempo de decidir se queríamos participar. Tem momentos que torcemos para que se concretizem, e momentos que se realizam sem a nossa permissão, nos surpreendendo de forma positiva ou não. Tem vida que a gente reconhece, e vida que reconhece a gente.


Por mais que tentemos arquitetar, por mais que imaginemos controlar as velas, por mais que tenhamos todo roteiro de nossas vidas planejado e passado a limpo… ainda assim seremos surpreendidos. Ainda assim teremos que lidar com aquilo que a gente não decidiu, mas a vida decidiu pra gente.


Deus é especialista em reviravoltas. Nenhuma história chegou ao fim, nenhum enredo é definitivo, nada é absoluto, tudo é transitório. Você não “é”, e sim “está”. A vida é movimento; cheia de vírgulas, mudança de parágrafos, quebra de linhas. Não se afobe, esteja preparado para tudo, aproveite o momento presente. Nada está concluído ainda. Estamos de passagem, nada nos pertence.


Algumas vezes você vai sentir que pegou o trem errado. Que está se afastando da estação, distanciando-se cada vez mais do destino que planejou, sendo conduzido dentro de um vagão que corre para o lado contrário ao que você pretendia. E então, desesperado por causa do engano, você não enxerga que embarcou no melhor trem – muito superior àquele que você queria – e está sendo conduzido por uma paisagem centenas de vezes mais bonita. Sua indignação por ter tomado o trem errado supera sua capacidade de apreciação do momento e, lamentando sem parar, você deixa de reparar em toda sorte que a vida lhe dá.


Nada nos prepara para o que virá. Assim, é verdade que nem sempre o que está reservado para nós é a melhor viagem, no melhor assento, com vista para a paisagem mais exuberante. Porém, é o destino que nos cabe no momento. Dizem que “o que não é benção, é lição”, e concordo com a afirmação. Então, se o que está reservado a você é uma rota confusa, num vagão apertado e sem ventilação, embarque e acalme seu coração. Talvez a vida esteja só te desafiando a confiar. Deus é especialista em reviravoltas e, num piscar de olhos, tudo pode mudar…


*Fabíola Simões  

Nada é pior do que conviver com gente fingida!

Conheça seus limites e os limites dos outros. Nada pior do que gente fingida. Não há dúvidas de que o mundo seria muito melhor se as pessoas...