sexta-feira, 19 de abril de 2019

APESAR DE TUDO É PRECISO RESSUSCITAR

A cruz? Cada um que carregue a sua. Não é assim? Você dá conta? Para mim é bem complicado. Eu vou pelo caminho quase que com fita métrica na mão. Comparo. Me revolto. Acho que a minha é mais pesada. Não é justo. Por que isso logo comigo?

A gente reclama muito. Cruz não se mede, se carrega. Se aprende. Se inventa jeitos de se esfolar menos. Cruz não é castigo. É combo. Você ganha a vida e a cruz vem de graça, tipo surpresinha de ovo de Páscoa. Brinde.

A cruz é um corpo que dá defeito. Uma mente que afunda em depressão. Acidentes, demissões. Separações, traições. Tudo é cruz. Dói. Mas a tudo se sobrevive. Não perca muito tempo com coitadismo. Aprenda, dê a volta por cima, ressuscite.

Ressuscitar não é fácil. Na real, olho em volta e só vejo, minhas dores, meu umbigo. As derrotas, os fracassos, as mágoas que ainda carrego. Tenho um baú de afetos. De ressentimentos guardados. Carrego com certo orgulho. Sem perceber o estrago.

Meu corpo que dá defeitos, me revolta e paralisa. Minha cruz, não é de madeira. São escolhas, retornos. Raivas que me moem por dentro. Abandonos que eu não deixo partir. Erros que só repito. Um futuro que não me permito atingir.

Me afundo em decepções e tormentos. Me arrasto como zumbi, carpindo minhas cicatrizes. Morta de pena de mim, a coitadinha de sempre. Sem fé, sem expectativas. Me afogando em lembranças. E na angústia do que virá.

Quantas vezes morremos? Já nem mais conto. Muitas vezes por dia. Tem dias que quase não morro. Outros que já nem levanto. Morremos nos desenganos. Nas notícias que nos cortam a alma. Nas nossas tristezas tantas. No que não posso responder. Nas faltas não preenchidas. Nas ausências, nas saudades. Nas derrotas e na solidão.

A gente chora em silêncio. Se recheia de amargura. E fica. Ali. Sem vida. Só sofrendo. Sair do túmulo é largar mão do que não presta. Aprender com os erros e fazer diferente. Deixar ir em paz quem já não quer ou não pode mais ficar. É se preparar para as mudanças.

Voltar da morte é para fortes. Essa história de recomeçar? É fácil em texto. Mas encarar as perdas, elaborar os lutos que entristecem a alma, olhar de frente as cicatrizes e sair do túmulo? Isso é Páscoa. É ressuscitar. É difícil. Mas, pelo visto, a única saída para continuar vivo.

Jesus, eu não tenho a sua força. Nem a sua ousadia. Não consigo seguir teus passos. Estou moribundo na estrada. Me ajude a ressuscitar.

Me limpe das amarguras. Me ensine a caminhar. Quando tudo for pedra, Jesus, me ajude a andar.

Me ponha no colo um pouco, aceite, eu vou chorar. Me diga ao pé do ouvido:

- Estou aqui. Vai passar.

Quando tudo for breu, me acenda com sua luz. Me lembre que não estou sozinha. Me dá tua mão, Jesus.

Porque sou fraca e lerda. Tenho medos, angústias. Não sou boa de lutas. Jesus, me ensina a dar conta. A dar a volta por cima. Quero ser viva, quero Páscoa. Me ensine a ressuscitar.


*Mônica Raouf El Bayeh

Mônica é carioca, professora e psicóloga clínica. Especialista em atendimento a crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.

Sobre os ciclos e recomeços da vida…

Nossa vida é uma eterna construção, mesmo quando erramos, algo está sendo construído. Toda construção requer tempo e mais do que qualquer ou...